No universo dos grandes shows de rock, poucas iniciativas foram tão impactantes e simbólicas quanto a Wake Up SP. O que começou como uma simples ideia de iluminar os estádios com as cores da Armênia se transformou em um movimento internacional de consciência histórica. Criada por Mari Lapa, a ação visa reconhecer e dar visibilidade ao genocídio armênio, através da força de um gesto coletivo: o acender de luzes coloridas com as lanternas dos celulares em shows do System of a Down.
Um gesto que carrega memória
Durante os shows da banda em séries de apresentações pelo Brasil e América do Sul, fãs se organizaram para acender lanternas dos celulares com filtros vermelhos, azuis e laranjas, formando a bandeira da Armênia. O impacto visual foi enorme, mas o impacto simbólico foi ainda maior. Como destaca Mari Lapa, idealizadora do projeto Wake Up SP, a intenção era mostrar que a missão do System of a Down de divulgar o genocídio armênio ao mundo não apenas foi compreendida pelo público, mas também abraçada e amplificada por ele.
O genocídio armênio: o massacre silenciado
Entre 1915 e 1923, o Império Otomano exterminou cerca de 1,5 milhão de armênios. O evento é amplamente reconhecido por historiadores e por mais de 30 países como o primeiro genocídio do século XX, mas até hoje não é reconhecido pela Turquia, herdeira do Império. O Brasil, por sua vez, não possui um reconhecimento formal via pronunciamento do presidente, o que é exigido para que o país passe a integrar a lista oficial de nações que reconhecem o crime.
A negação ou o silenciamento sobre genocídios passados cria um perigoso precedente para a ocorrência de novos crimes contra a humanidade. Como Mari aponta, reconhecer o genocídio armênio é também reconhecer o que ocorreu com os povos indígenas no Brasil durante a ditadura militar e, atualmente, em zonas de conflito como Gaza.
System of a Down: música como manifesto
O System of a Down é uma banda armeno-americana formada em Los Angeles em 1994. Todos os seus membros possuem ascendência armênia, e o compromisso com a memória histórica sempre esteve presente em suas músicas. Canções como “P.L.U.C.K.” (Politically Lying, Unholy, Cowardly Killers) são uma críticas contundentes à negação do genocídio.
A banda se destaca por unir metal alternativo, letras políticas afiadas e uma postura ativista consistente. Seus membros, especialmente o vocalista Serj Tankian, também atuam fora da música como porta-vozes de causas humanitárias, especialmente ligadas à Armênia.
Um chamado à consciência coletiva
Wake Up SP não é apenas um movimento de fãs: é um clamor por justiça histórica. Em um tempo em que discursos negacionistas ganham espaço, gestos como o de acender uma luz com o celular ganham potência simbólica e política. É uma maneira silenciosa, mas eloquente, de dizer: “nós lembramos, e nós exigimos que o mundo também lembre”.
